Calculista: não evitar o risco, analisá-lo
O estilo calculista não evita o risco: analisa-o. Assume o necessário quando o benefício compensa claramente o custo possível.
Um risco, mas com critério
Este estilo não encaixa nem na evitação sistemática nem na procura de emoções fortes. O seu traço distintivo é submeter cada decisão a uma avaliação explícita de custo e benefício antes de se comprometer: se a análise sai favorável, age com determinação; se não, retira-se quase sem hesitar.
“Calculista” é o rótulo que o nosso teste de como lido com o risco usa para um dos seus quatro perfis. Aparece quando predominam afirmações como “Quando assumo um risco, primeiro calculo bem as probabilidades reais”, “Gosto de dividir um risco grande em passos mais pequenos e controláveis” ou “Prefiro um risco medido a um impulsivo, mesmo que demore mais a decidir”. Cada uma dessas frases liga-se a uma linha de investigação diferente.
A base psicológica do estilo calculista
Calcular probabilidades: o ideal e o que fazemos na realidade
A teoria económica clássica descreve a decisão ideal como um cálculo de valor esperado: multiplicar o que se pode ganhar ou perder pela sua probabilidade e escolher o que rende mais. O estilo calculista é, aparentemente, o que mais se aproxima desse ideal.
Kahneman e Tversky (1979) mostraram com a sua teoria da perspetiva que ninguém calcula exatamente assim. Avaliamos os ganhos e as perdas em relação a um ponto de referência, as perdas pesam mais do que os ganhos equivalentes e as probabilidades pequenas são sobrevalorizadas. Na versão de 1992, estimaram que uma perda pesa, em média, um pouco mais do dobro de um ganho do mesmo tamanho.
O que distingue o perfil calculista não é estar livre destes enviesamentos, mas tentar tornar explícito o cálculo, o que ajuda a ver quando uma perda possível está a pesar mais do que deveria.
O gosto por pensar
A psicologia tem um nome para a disposição para gostar do esforço mental: necessidade de cognição. Cacioppo e Petty (1982) definiram-na como a tendência para se envolver em tarefas que exigem pensar e para tirar prazer delas, e criaram uma escala para a medir. As pessoas com elevada necessidade de cognição procuram mais informação antes de formar uma opinião e reparam mais na qualidade dos argumentos.
É uma pista razoável sobre a razão pela qual, para algumas pessoas, a análise prévia não é um fardo, mas parte do atrativo de decidir.
Dividir o risco: a perda aceitável
A frase do teste sobre “dividir um risco grande em passos mais pequenos” lembra uma descoberta da investigação sobre empreendedorismo. Saras Sarasvathy (2001) estudou como decidem empreendedores experientes e observou que muitos não partem de um cálculo de rendimento esperado, mas de quanto podem dar-se ao luxo de perder no passo seguinte. Dew, Sarasvathy, Read e Wiltbank (2009) desenvolveram essa ideia como o princípio da perda aceitável (affordable loss).
É outra forma de calcular: em vez de estimar o resultado final, muitas vezes impossível de prever, limita-se a exposição em cada etapa e decide-se o passo seguinte com o que já se aprendeu.
Como se manifesta no dia a dia
- Assume risco quando o benefício potencial compensa claramente o custo possível.
- Avalia antes de agir, mas não fica bloqueado indefinidamente na análise.
- Confia mais no critério próprio, construído com dados, do que no palpite do momento.
- Costuma explicar as suas decisões com razões concretas, não com intuições vagas.
Um exemplo: perante a ideia de montar um pequeno negócio de fim de semana, a pessoa calculista não deixa o emprego nem põe a ideia de lado à partida. Fixa uma quantia que poderia perder sem que isso a afete, experimenta durante uns meses e decide se continua em função dos números dessa experiência.
Os limites da análise
Quando analisar se transforma em adiar
O ponto fraco deste estilo surge quando a análise se prolonga mais do que o necessário, sobretudo em decisões em que a informação nunca será completa. Herbert Simon (1956) propôs que, com tempo e capacidade limitados, o racional não é procurar a opção ótima, mas uma suficientemente boa, a que chamou satisficing.
Schwartz e os colegas (2002) estudaram quem faz o contrário, os maximizadores, que precisam de examinar todas as alternativas antes de escolher. Nas suas amostras, os maximizadores declaravam menos satisfação com as suas decisões e mais arrependimento do que quem se contentava com uma boa opção. São dados correlacionais, mas sugerem que mais análise nem sempre se traduz em decisões mais bem vividas.
O enviesamento de olhar para cada decisão em separado
Kahneman e Lovallo (1993) descreveram dois enviesamentos que convivem em quem analisa caso a caso. Por um lado, ao isolar cada decisão, tende-se a ser demasiado prudente com apostas pequenas que, repetidas muitas vezes, compensariam. Por outro, ao construir o cenário de um plano próprio, tende-se a ser demasiado otimista, porque se raciocina a partir de dentro do plano e não da experiência de projetos semelhantes.
Para reduzir esse segundo enviesamento, o psicólogo Gary Klein propôs o premortem: antes de lançar um projeto, imaginar que já falhou e escrever as causas possíveis. É uma ferramenta que encaixa na lógica do estilo calculista, porque transforma a dúvida em parte da análise.
Entre dois extremos
O estilo calculista ocupa um terreno intermédio entre o estilo prudente, que evita o risco por sistema, e o estilo audacioso, que o procura ativamente. Ao contrário de ambos, não parte de uma postura fixa: parte de uma análise. O estilo adaptável ao contexto partilha com ele a avaliação caso a caso, embora guiado mais pelo terreno do que pelo cálculo.
Queres ver o teu próprio estilo? Faz o teste de como lido com o risco. É um questionário orientativo de autoconhecimento, não uma avaliação financeira.
Fontes
- Cacioppo, J. T. e Petty, R. E. (1982). The need for cognition. Journal of Personality and Social Psychology, 42(1), 116-131. https://doi.org/10.1037/0022-3514.42.1.116
- Dew, N., Sarasvathy, S., Read, S. e Wiltbank, R. (2009). Affordable loss: Behavioral economic aspects of the plunge decision. Strategic Entrepreneurship Journal, 3(2), 105-126. https://doi.org/10.1002/sej.66
- Kahneman, D. e Lovallo, D. (1993). Timid choices and bold forecasts: A cognitive perspective on risk taking. Management Science, 39(1), 17-31. https://doi.org/10.1287/mnsc.39.1.17
- Kahneman, D. e Tversky, A. (1979). Prospect theory: An analysis of decision under risk. Econometrica, 47(2), 263-291. https://doi.org/10.2307/1914185
- Klein, G. (2008). Performing a project premortem. IEEE Engineering Management Review, 36(2), 103-104. https://doi.org/10.1109/EMR.2008.4534313
- Sarasvathy, S. D. (2001). Causation and effectuation: Toward a theoretical shift from economic inevitability to entrepreneurial contingency. Academy of Management Review, 26(2), 243-263. https://doi.org/10.2307/259121
- Schwartz, B., Ward, A., Monterosso, J., Lyubomirsky, S., White, K. e Lehman, D. R. (2002). Maximizing versus satisficing: Happiness is a matter of choice. Journal of Personality and Social Psychology, 83(5), 1178-1197. https://doi.org/10.1037/0022-3514.83.5.1178
- Simon, H. A. (1956). Rational choice and the structure of the environment. Psychological Review, 63(2), 129-138. https://doi.org/10.1037/h0042769
- Tversky, A. e Kahneman, D. (1992). Advances in prospect theory: Cumulative representation of uncertainty. Journal of Risk and Uncertainty, 5(4), 297-323. https://doi.org/10.1007/BF00122574
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Descobre o teu resultado com um dos nossos testes relacionados.
Perguntas frequentes
O estilo calculista é uma mistura de prudente e audacioso?
Não é exatamente um ponto médio: é um estilo próprio, que avalia ativamente o risco com critérios claros em vez de reagir por instinto numa direção qualquer.
Analisar tanto não atrasa as decisões?
Pode atrasar, se for levado ao extremo. O desafio deste estilo é não confundir analisar com adiar indefinidamente. Herbert Simon chamou satisficing à alternativa: escolher a primeira opção que cumpre um critério suficiente, em vez de procurar sempre a ótima.
Calcular o risco garante decidir melhor?
Não. A análise reduz alguns erros, mas tem os seus próprios enviesamentos: Kahneman e Lovallo (1993) descreveram como, ao avaliar cada decisão de forma isolada, se tende a ser demasiado cauteloso com as apostas pequenas e demasiado otimista com os próprios planos.