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Inteligência emocional

Emoções básicas: não choras porque estás triste, estás triste porque choras

Pela redação do Personaramic9 min de leitura
Ilustração minimalista de uma lágrima estilizada ao lado de uma linha de pulsação cardíaca

O senso comum diz que perdes algo, ficas triste e choras. Em 1890, William James escreveu que a ordem é precisamente a inversa. Mais de um século depois, a ciência das emoções básicas ainda discute quanta razão ele tinha.

A frase está no capítulo XXV dos seus Princípios de Psicologia, o dedicado às emoções, e é daquelas ideias que, depois de lidas, se começam a ver em todo o lado.

A inversão: primeiro o corpo, depois o sentimento

James parte de três cenas quotidianas do senso comum (p. 915):

  • Perdemos a fortuna, ficamos tristes e choramos.
  • Encontramos um urso, temos medo e fugimos.
  • Um rival insulta-nos, zangamo-nos e batemos.

A sua hipótese é que esta sequência está mal ordenada. O que acontece, segundo ele, é que a perceção do facto desencadeia diretamente alterações corporais, e a emoção é a sensação dessas alterações enquanto ocorrem.

Daí a sua frase mais citada: sentimo-nos tristes porque choramos, furiosos porque batemos, com medo porque trememos.

Não pensou nisto sozinho: o médico dinamarquês Carl Lange chegou a uma ideia muito parecida em 1885, um ano depois de James a ter adiantado no artigo “What is an emotion?” (Mind, 1884). Por isso se fala hoje da teoria de James-Lange.

A prova da subtração: o que resta do medo sem corpo?

O argumento mais forte de James é uma experiência mental (p. 917). Propõe imaginar uma emoção intensa e retirar-lhe, uma a uma, as sensações corporais:

  • o coração acelerado,
  • a respiração entrecortada,
  • o tremor dos lábios,
  • a pele de galinha,
  • o nó no estômago.

Segundo James, o que resta não é medo, mas um juízo frio, quase administrativo, do género “isto é perigoso”. A sua conclusão é taxativa: uma emoção humana sem corpo não é nada.

James usava uma metáfora musical para o descrever: o organismo inteiro funciona como uma caixa de ressonância (p. 916). Cada matiz emocional faz vibrar uma combinação diferente de músculos, vísceras e pele.

O rapaz que desmaiou ao ver a sangria de um cavalo

James apresenta uma memória sua como prova de que o corpo pode ir à frente da mente (p. 921).

Com sete ou oito anos, viu fazerem uma sangria a um cavalo: o pau metido no balde de sangue. Não sentiu medo nem nojo conscientes; simplesmente desmaiou, e lembrava-se do próprio espanto ao acordar.

Para James, era a demonstração de que a reação corporal pode disparar sem passar primeiro por um sentimento identificável.

O que James concluiu da sua própria teoria

Se a emoção é o eco do corpo, pensou James, mudar a expressão deveria mudar a emoção (pp. 925-926).

Estas eram as suas observações:

  • “Contar até dez” antes de explodir faz com que o motivo da raiva pareça ridículo.
  • Assobiar para ganhar coragem “não é mera figura de estilo”.
  • “Se nos recusarmos a exprimir uma paixão, ela morrerá” (p. 925).
  • O filósofo Tommaso Campanella, segundo contava Burke, imitava o rosto e a postura de alguém para adivinhar o seu estado de espírito (p. 926).

James analisou ainda um inquérito do crítico William Archer a atores (pp. 927-928). Uns diziam chorar a sério em palco; outros, como o francês Coquelin, afirmavam representar a frio. O corpo, portanto, não arrastava toda a gente da mesma maneira.

E reconhecia emoções mais subtis, quase intelectuais, como o prazer estético. O elogio máximo de Chopin a uma música nova era “Rien ne me choque”, nada me choca (p. 932).

O que é que a ciência corrigiu na teoria de James-Lange?

Bastante. Estas são as principais objeções:

  • Cannon (1927), no American Journal of Psychology, assinalou que as vísceras reagem demasiado devagar, e de forma demasiado parecida em emoções diferentes, para explicarem sozinhas a diferença entre raiva e medo. Daí a teoria de Cannon-Bard.
  • Schachter e Singer (1962) injetaram adrenalina em voluntários e propuseram que a emoção combina ativação corporal com uma etiqueta cognitiva que depende do contexto. Os seus resultados, porém, revelaram-se difíceis de replicar.
  • O efeito de feedback facial (sorrir para se sentir melhor) sofreu um revés célebre: 17 laboratórios com 1894 participantes não reproduziram a experiência da caneta na boca (Wagenmakers et al., 2016). Uma meta-análise posterior de 138 estudos encontrou um efeito real, mas pequeno e variável (Coles, Larsen e Lench, 2019).

O que James acertou sobre as emoções básicas: o corpo conta

Ainda assim, a intuição central envelheceu melhor do que parecia em 1927.

  • A neurociência da interoceção (a perceção do estado interno do corpo) descreve um sistema próprio que informa o cérebro sobre o pulso, a respiração ou a temperatura, e que Craig (2002) liga à base dos sentimentos subjetivos.
  • A sua máxima de que uma paixão não exprimida se apaga tem um eco curioso na investigação sobre o desabafo: Bushman (2002) observou que bater num saco a pensar em quem provocou a irritação aumentava a raiva em vez de a reduzir.
  • Paul Ekman (1992) defendeu a existência de emoções básicas (alegria, tristeza, raiva, medo, nojo e surpresa) com sinais e fisiologia próprios.
  • Lisa Feldman Barrett (2017) contesta essa lista fixa, mas a sua teoria da emoção construída volta a pôr as sensações corporais no centro: o cérebro prevê o que o corpo sente e interpreta-o com conceitos aprendidos.

Uma metáfora possível: James achava que a emoção era a música que sai da caixa de ressonância. Hoje parece mais uma partitura que o cérebro escreve a partir desse som e de tudo o que já ouviu antes.

Dar o nome certo a essa partitura tem efeitos mensuráveis, como se explica em dar nome ao que sentes para o acalmar.

Quantas emoções básicas existem? Um debate em aberto

A lista de seis que circula em manuais e cartazes (alegria, tristeza, raiva, medo, nojo e surpresa) vem do trabalho de Paul Ekman com expressões faciais. O seu argumento de 1992 era que estas emoções têm sinais reconhecíveis em muitas culturas, surgem depressa, duram pouco e assentam numa fisiologia própria.

Essa lista não é um dado fechado, e a discussão deu três resultados que vale a pena conhecer:

  • O número muda conforme o ângulo. Rachael Jack, Oliver Garrod e Philippe Schyns (2014) geraram por computador rostos animados com combinações aleatórias de movimentos musculares e analisaram como os observadores os interpretavam ao longo do tempo. Nos primeiros instantes de uma expressão só se distinguiam com clareza quatro sinais: alegria, tristeza, um bloco de medo e surpresa (olhos muito abertos) e outro de nojo e raiva (nariz franzido). A separação em seis chegava depois.
  • O reconhecimento não é tão universal como se pensava. Maria Gendron e a sua equipa (2014) pediram a pessoas himba, do noroeste da Namíbia, e a norte-americanos que agrupassem por tipo de emoção fotografias de rostos posados. Sem pistas sobre os conceitos de emoção, os participantes himba não reproduziram o padrão supostamente universal que aparecia no grupo norte-americano. Com essas pistas aproximavam-se mais dele, embora as diferenças culturais continuassem a ser notórias.
  • O rosto não chega para ler a emoção. Uma revisão de Lisa Feldman Barrett e quatro colegas (2019) concluiu que franzir o sobrolho, por exemplo, acompanha a raiva com mais frequência do que o acaso, mas longe de o fazer sempre, e que o mesmo gesto aparece também noutras emoções. O contexto pesa tanto como o músculo.

A nossa leitura é que o debate não anula a ideia de emoções básicas, mas reduz-lhe o alcance: há famílias de reações com raízes biológicas partilhadas, e a forma como cada cultura as exprime, as nomeia e as reconhece varia bastante mais do que sugere uma lista de seis. Curiosamente, as duas posições concordam com James numa coisa: o corpo não é um cenário da emoção, mas parte da sua matéria.

Porque é que choramos, afinal?

Aqui a ciência moderna acrescenta algo que James não podia saber.

Ad Vingerhoets, da Universidade de Tilburg, dedicou um livro inteiro à pergunta (Why Only Humans Weep, 2013). A sua conclusão, desenvolvida com Gračanin e Bylsma (2018):

  • As lágrimas emocionais parecem exclusivas do ser humano.
  • Funcionam sobretudo como sinal social de vulnerabilidade.
  • Quem vê alguém chorar tende a sentir compaixão e mais vontade de ajudar.

O choro, portanto, não se limita a “produzir” tristeza, como pensava James: também a comunica aos outros.

Distinguir que emoção aparece primeiro e qual vem atrás é exatamente o tema da autoconsciência emocional, e o teste de emoções primárias e secundárias permite ver o teu próprio padrão.

Fontes

  • James, W. (1989). Principios de psicología. Fondo de Cultura Económica. (Obra original publicada em 1890).
  • James, W. (1884). What is an emotion? Mind, 9(34), 188-205.
  • Cannon, W. B. (1927). The James-Lange theory of emotions: A critical examination and an alternative theory. The American Journal of Psychology, 39, 106-124.
  • Schachter, S., & Singer, J. E. (1962). Cognitive, social, and physiological determinants of emotional state. Psychological Review, 69(5), 379-399.
  • Ekman, P. (1992). An argument for basic emotions. Cognition and Emotion, 6(3-4), 169-200.
  • Craig, A. D. (2002). How do you feel? Interoception: the sense of the physiological condition of the body. Nature Reviews Neuroscience, 3, 655-666. https://doi.org/10.1038/nrn894
  • Bushman, B. J. (2002). Does venting anger feed or extinguish the flame? Personality and Social Psychology Bulletin, 28(6), 724-731.
  • Wagenmakers, E.-J., et al. (2016). Registered Replication Report: Strack, Martin, & Stepper (1988). Perspectives on Psychological Science, 11(6), 917-928. https://doi.org/10.1177/1745691616674458
  • Coles, N. A., Larsen, J. T., & Lench, H. C. (2019). A meta-analysis of the facial feedback literature: Effects of facial feedback on emotional experience are small and variable. Psychological Bulletin, 145(6), 610-651. https://doi.org/10.1037/bul0000194
  • Barrett, L. F. (2017). How Emotions Are Made: The Secret Life of the Brain. Houghton Mifflin Harcourt.
  • Barrett, L. F., Adolphs, R., Marsella, S., Martinez, A. M., & Pollak, S. D. (2019). Emotional expressions reconsidered: Challenges to inferring emotion from human facial movements. Psychological Science in the Public Interest, 20(1), 1-68. https://doi.org/10.1177/1529100619832930
  • Jack, R. E., Garrod, O. G. B., & Schyns, P. G. (2014). Dynamic facial expressions of emotion transmit an evolving hierarchy of signals over time. Current Biology, 24(2), 187-192. https://doi.org/10.1016/j.cub.2013.11.064
  • Gendron, M., Roberson, D., van der Vyver, J. M., & Barrett, L. F. (2014). Perceptions of emotion from facial expressions are not culturally universal: Evidence from a remote culture. Emotion, 14(2), 251-262. https://doi.org/10.1037/a0036052
  • Vingerhoets, A. (2013). Why Only Humans Weep: Unravelling the Mysteries of Tears. Oxford University Press.
  • Gračanin, A., Bylsma, L. M., & Vingerhoets, A. J. J. M. (2018). Why only humans shed emotional tears: Evolutionary and cultural perspectives. Human Nature, 29(2), 104-133. https://doi.org/10.1007/s12110-018-9312-8

Perguntas frequentes

O que são as emoções básicas?

Segundo a proposta de Paul Ekman (1992) na revista Cognition and Emotion, são um pequeno grupo de emoções (alegria, tristeza, raiva, medo, nojo e surpresa) com sinais faciais reconhecíveis em muitas culturas, início rápido e duração breve. A lista é discutida: investigadoras como Lisa Feldman Barrett defendem que as emoções são construídas e variam mais do que esse modelo supõe.

O que diz a teoria de James-Lange?

Que a emoção é a perceção das alterações corporais que uma situação provoca. William James (1884 e 1890) e o médico dinamarquês Carl Lange (1885) chegaram à ideia de forma independente: não trememos porque temos medo; sentir o tremor, o pulso e a respiração é, em boa parte, o medo.

Porque é que choramos quando estamos tristes?

A investigação de Ad Vingerhoets e da sua equipa aponta para que as lágrimas emocionais, exclusivas do ser humano, funcionem sobretudo como sinal social: comunicam vulnerabilidade e tendem a despertar compaixão e ajuda em quem as vê (Gračanin, Bylsma e Vingerhoets, 2018).

É verdade que sorrir nos torna mais felizes?

Só um pouco. Uma replicação em 17 laboratórios (Wagenmakers et al., 2016) não reproduziu a famosa experiência da caneta na boca, e uma meta-análise de 138 estudos (Coles, Larsen e Lench, 2019) concluiu que a expressão facial influencia a emoção, mas com efeitos pequenos e variáveis.

Este artigo substitui uma avaliação profissional sobre as minhas emoções?

Não. Resume a teoria de William James e a investigação posterior com fins informativos e educativos. Se a tristeza, o medo ou o choro causarem um mal-estar intenso ou persistente, o indicado é consultar um profissional de saúde mental.