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Relações e vida social

Conectar não é o mesmo que relacionar-se: a armadilha de confundir redes com vínculos

Por Rafa Personaramic5 min de leitura
Ilustração minimalista de uma rede de nós com um vínculo duplo mais espesso entre dois deles

“Conectar-se” e “relacionar-se” soam quase como sinónimos, mas Zygmunt Bauman sustenta que não são: uma relação obriga, uma conexão não. Em Liquid Love (2003) explica porque é que essa mudança de vocabulário, que parece um pormenor menor, revela e ao mesmo tempo reforça uma forma completamente diferente de nos ligarmos aos outros.

Bauman observa que cada vez mais as pessoas falam, ajudadas e induzidas por conselheiros e divulgadores, de “conexões”, de “conectar-se” e “estar conectado”, em vez de falarem de “relacionar-se” e de “relações”. Em vez de casais, preferem falar de “redes”. A pergunta que coloca diretamente é esta: que vantagem traz falar de conexões em vez de relações?

A diferença, explicada passo a passo

Ao contrário de palavras como “relação”, “casal” ou “parentesco”, que realçam o compromisso mútuo e deixam de fora, ou pelo menos incomodam, o seu oposto (o descompromisso), a “rede” representa algo diferente por desenho. O raciocínio de Bauman pode seguir-se em três passos:

  1. Uma relação exclui o seu oposto. Estar “numa relação” implica, quase por definição, não se poder estar simultaneamente “fora” dela sem a romper. Compromisso e descompromisso não têm o mesmo estatuto: um é a norma, o outro a exceção que é preciso explicar.
  2. Uma rede inclui ambos os estados por igual. Conectar e desconectar são, dentro de uma rede, duas atividades igualmente legítimas e com o mesmo peso. Não faz sentido, assinala Bauman, perguntar qual das duas constitui “a essência” de uma rede, porque nenhuma o é mais do que a outra.
  3. Essa simetria muda aquilo que se pode exigir. Se conectar e desconectar valem o mesmo, ninguém pode exigir a outro que “deveria” continuar conectado, da mesma forma que se pode exigir fidelidade dentro de uma relação comprometida.

Porque é que uma “conexão indesejável” não existe

Bauman chega a uma distinção que vale a pena olhar de perto. Uma relação “indesejável mas indissolúvel” é precisamente aquilo que a torna arriscada: alguém pode ficar preso num vínculo que já não quer, sem uma saída fácil. Uma “conexão indesejável”, pelo contrário, é diretamente um oxímoro segundo a sua abordagem: as conexões, pela sua própria natureza, dissolvem-se muito antes de se tornarem detestáveis. O próprio desenho de uma rede inclui a saída como parte do sistema, não como uma exceção incómoda que é preciso negociar.

Um exemplo de como isto se nota na vida real

Pensemos em duas formas diferentes de responder à mesma pergunta: “o que é que vocês os dois têm?”. Uma pessoa que está “numa relação” tem de dar uma resposta que implica compromisso, ainda que informal: “estamos juntos”, “andamos a sério”. Uma pessoa que prefere descrever o mesmo vínculo como “estamos conectados” ou “temos uma coisa” deixa a porta aberta a que amanhã essa conexão se corte sem que ninguém tenha de anunciar uma rutura formal. Não é apenas uma questão de vocabulário tímido: é uma forma de manter, com a linguagem, a mesma saída de emergência que Bauman descreve no resto da sua análise sobre o amor líquido.

O modelo que acaba por se impor a todos os outros

Bauman recorre a uma imagem retirada da economia para explicar algo ainda mais inquietante: compara o que acontece com as relações virtuais, rebatizadas de “conexões”, com a lei de Gresham, segundo a qual a moeda de pior qualidade tende a expulsar de circulação a de melhor qualidade. A sua proposta é que esse modelo mais leve, mais fácil de estabelecer e de cortar, acaba por se tornar a referência que também passa a reger as relações que, em teoria, aspiravam a algo mais duradouro e comprometido. Não é por acaso, acrescenta, que as conexões estão, nas suas próprias palavras, “feitas à medida” de um ambiente de empregos mutáveis e mudanças frequentes: exigem muito menos estabilidade de fundo do que uma relação tradicional.

Ganha-se algo, perde-se algo

Bauman resume o resultado desta mudança sem cair num diagnóstico simplista: não sustenta que as pessoas que adotam a linguagem das conexões sejam mais infelizes do que antes, quando essa linguagem ainda não existia, nem tampouco que sejam mais felizes. “Ganha-se algo, perde-se algo”, escreve. Para o ver com clareza, convém separar as duas colunas:

  • O que se ganha: menor risco, menor exposição, maior sensação de controlo sobre quando começar e quando terminar um vínculo, e a possibilidade de sustentar muitas conexões em simultâneo sem a sobrecarga emocional de várias relações comprometidas ao mesmo tempo.
  • O que se perde: é mais difícil de nomear, precisamente porque o vocabulário disponível para o descrever (o de “relação” e “compromisso”) é exatamente o que se está a deixar de usar. Inclui, entre outras coisas, a certeza de que alguém vai continuar ali mesmo quando a conexão deixar de ser confortável.

Uma questão de vocabulário com consequências reais

A forma como alguém nomeia um vínculo (como “uma coisa”, como “estar conectados”, como “andar”, como “estar juntos”) não é um pormenor menor, mas um sinal de que nível de compromisso está disposta a reconhecer em voz alta. A comunicação assertiva parte precisamente de nomear as coisas com precisão, incluindo o próprio nível de envolvimento num vínculo, em vez de deixar essa pergunta permanentemente em aberto sob a ambiguidade confortável de “estar conectados”.

Redes de amigos, não só de casal

A análise de Bauman não se limita ao terreno romântico. A mesma lógica de rede aplica-se à amizade: ter dezenas ou centenas de contactos disponíveis para “conectar” a qualquer momento não equivale automaticamente a sustentar os vínculos densos e comprometidos que durante séculos definiram a amizade. Distinguir entre as duas coisas, sem precisar de renunciar a nenhuma, é parte do que explora o perfil de amigo confidente, centrado precisamente nesse tipo de vínculo denso e sustentado ao longo do tempo.

Conclusão: nomear o vínculo é também decidir o que se espera dele

A distinção de Bauman entre relacionar-se e conectar-se não é um exercício semântico sem consequências. A linguagem que uma pessoa escolhe para descrever um vínculo (com o seu par, com os seus amigos, com a sua rede de contactos) revela quanto compromisso está disposta a assumir e quanto espera do outro lado. Nenhuma das duas palavras é, em si mesma, melhor: uma rede bem sustentada pode dar companhia real, e uma relação mal sustentada pode ser uma jaula. Aquilo que Bauman pede, no fundo, é atenção à palavra que se usa, porque quase sempre denuncia, melhor do que qualquer declaração explícita, o quanto uma pessoa está disposta a que esse vínculo dependa de algo mais do que a conveniência do momento.

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Perguntas frequentes

Porque distingue Bauman entre 'relacionar-se' e 'conectar-se'?

Porque considera que não são sinónimos neutros: uma relação implica compromisso mútuo e exclui o descompromisso, enquanto uma rede permite conectar e desconectar com o mesmo estatuto, sem que nenhuma das duas atividades seja considerada mais central do que a outra.

Bauman diz que as redes sociais são negativas?

Não as descreve em termos de bom ou mau. Assinala que oferecem uma sensação de segurança diferente da de uma relação tradicional, precisamente porque uma conexão se pode cortar antes de se tornar incómoda, algo que uma relação comprometida não permite com a mesma facilidade.

Que quer dizer Bauman com que as 'relações virtuais' funcionam como a lei de Gresham?

A lei de Gresham descreve como a moeda de pior qualidade tende a expulsar de circulação a de melhor qualidade. Bauman usa essa imagem para assinalar que o modelo de vínculo mais leve e fácil de cortar (a 'conexão') tende a tornar-se o padrão que condiciona também as relações mais comprometidas.

É melhor falar de 'relações' do que de 'conexões'?

Bauman não o coloca como uma recomendação de vocabulário, mas como uma observação: a linguagem que usamos para descrever um vínculo revela, e ao mesmo tempo reforça, o que esperamos dele e que grau de compromisso damos como garantido.