Líder sereno: confias que a equipa se organiza com autonomia
Confias que a tua equipa se pode organizar com pouca intervenção direta da tua parte, e preferes estar disponível a dirigir de perto.
Não é que te desligues: é que acreditas que a melhor forma de ajudar, na maioria dos casos, é não te interpores.
O estilo laissez-faire dentro da liderança
A investigação sobre liderança, incluindo a de Bernard Bass e Bruce Avolio (1991) dentro do seu modelo de liderança de espetro completo, descreve um terceiro estilo além do transformacional e do transacional: o laissez-faire, caracterizado por uma intervenção direta mínima e uma alta confiança na capacidade de autorganização da equipa. A reputação deste estilo na literatura é mista, pode confundir-se com ausência de liderança se não vier acompanhado de disponibilidade real, mas em equipas já maduras e autónomas costuma funcionar muito bem: a intervenção constante, nesse contexto, pode ser mais um estorvo do que uma ajuda.
Como se vê este estilo na prática
- As decisões operacionais do dia a dia ficam nas mãos da equipa, sem necessidade de aprovação constante.
- A disponibilidade é alta quando solicitada, ainda que a intervenção espontânea seja baixa.
- A equipa costuma desenvolver mais autonomia e iniciativa própria com o tempo, por não depender de instruções constantes.
- Pode gerar sensação de falta de direção em equipas que ainda precisam de mais estrutura ou orientação explícita.
A autonomia não é igualmente útil para todos
O risco deste estilo não está em confiar na equipa, isso costuma ser uma força real, mas em aplicá-lo da mesma forma independentemente de a equipa estar realmente preparada para essa autonomia. Com perfis mais novos ou inseguros, o mesmo grau de “não intervenção” que funciona muito bem com uma equipa experiente pode sentir-se como abandono. Poderia ser útil rever, nalgum momento, se a intervenção mínima responde ao contexto real da equipa ou simplesmente à comodidade de intervir pouco, ainda que isto dependa de cada situação.
Se preferes ajustar ativamente quanta orientação dás consoante a pessoa, em vez de manter uma intervenção mínima geral, revê o perfil líder delegador.
A versão construtiva de um estilo hands-off, segundo Michael Bungay Stanier
O coach Michael Bungay Stanier, no seu livro The Coaching Habit, assinala que a maioria dos responsáveis de equipa cai por defeito em dar conselhos e soluções depressa demais, o que cria dependência e não ajuda a que a outra pessoa desenvolva o seu próprio critério. A sua proposta é um pequeno repertório de perguntas simples e genuinamente curiosas (como “o que tens na cabeça?” ou a sua “pergunta AWE”: “e mais o quê?”) feitas antes de saltar diretamente para o conselho, ficando na curiosidade um pouco mais do que resulta natural para a maioria dos líderes.
Esta ideia dá à liderança serena uma versão concreta e ativa, em vez de simplesmente “intervir pouco”: a diferença entre uma liderança serena que funciona bem e uma que se percebe como ausência real de liderança está precisamente em substituir a intervenção direta por perguntas que ajudem a equipa a pensar por si mesma, não na ausência de qualquer interação. Bungay Stanier insiste em que perguntar “e mais o quê?” mais uma vez do que é habitual, antes de dar por encerrada uma conversa, costuma trazer à luz a melhor ideia da pessoa, a que não teria aparecido se o líder se tivesse limitado a dar a sua própria solução de imediato.
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Perguntas frequentes
A liderança serena é o mesmo que não liderar?
Não. Continua a ser uma forma ativa de liderar, baseada em confiar na capacidade da equipa para se organizar e estar disponível quando for preciso, não em desligar-se.
De onde vem este estilo?
Do que a investigação sobre liderança chama estilo laissez-faire ("deixar fazer"): intervenção direta mínima, com a equipa a assumir boa parte da autonomia operacional.
Funciona bem em qualquer equipa?
Funciona muito bem com equipas já experientes e autónomas. Com equipas que precisam de mais orientação ou estrutura, pode sentir-se como ausência de liderança real.
É compatível com estar disponível para a equipa?
Sim, aliás é essencial: a diferença entre uma liderança serena eficaz e uma simplesmente ausente está em continuar disponível quando a equipa precisa de apoio, mesmo que não se intervenha por rotina.